Tem dois dias que eu tô chorando sem parar praticamente. Ontem eu esqueci de almoçar.
Eu tomei café lá pelas 10:30, 11:00... sei lá, e no meio da tarde me distraí com uma série de coisas, principalmente merdas das redes sociais. Já era umas 17:00 quando me dei conta de que não tinha almoçado.
Ontem eu me senti um lixo. Continuo me sentindo hoje também. Eu não sei se é efeito da pandemia, falta de vitamina D, mas meu emocional já não está muito bom a um tempo. Eu realmente não tenho me sentido a pessoa feliz que eu sentia estar a uns bons anos. Acho que em algum momento isso vai passar. Não é a primeira vez que eu entro num buraco que parece não ter fundo, mas a muito, muito tempo eu não sentia que esse buraco era tão grande, e que eu tinha um oco no peito.
Tenho a sensação que meu peito é um buraco negro, mas não porque suga a luz ou o que haja no entorno.
Sinto que é um vazio imenso, obscuro, em que não sei o que pode haver lá e o que acontece ali. Eu queria conseguir tapar esse oco, esse vazio imenso.
Me peguei pensando em recorrer às alternativas que eu usava na adolescência quando o peito doía demais, tanto que eu só queria parar de sentir, então eu optava por me provocar dores externas, porque por míseros segundos enquanto meus braços sentiam as dores dos cortes eu parava de sentir a dor no meu peito, a dor dentro de mim. Mas acho que já superei essa lembrança. Meus braços ainda estão intactos.
Tenho tido vontade de dormir. Também me deu saudade da adolescência, de quando eu me sentia deprimida e dormia. Apagar era muito bom, porque dormindo eu não tinha como lembrar ou sentir nada. Eu simplesmente esquecia. É bom esquecer, mesmo que seja por algumas horas. O tempo passa, a vida passa, a gente consegue acordar depois de um tempo, ter esquecido a vida, mas sem morrer.
Às vezes eu quero morrer mesmo. Em alguns momentos eu tenho pensado que eu não vou dar conta de levar a vida por muito tempo. Me pego em vários momentos pensando em sumir, em desaparecer.
Tem dias, tem horas que eu só queria isso, desaparecer! D-E-S-A-P-A-R-E-C-E-R.
Eu não queria exatamente morrer. Eu penso nas coisas que ainda não fiz, nos lugares que ainda não conheci, que são os sonhos que eu ainda não realizei. De fato, os únicos sonhos que ainda tenho são os 184 territórios que eu ainda não pisei. Esse sonho é uma das poucas coisas que me mantém ainda tentando. Eu quero rodar o mundo, porque eu acredito que ele também pode ser meu. Por quê não?
E bem, agora eu tenho a gata, Minerva. Minha vidinha, meu demoninho de quatro patas tem sido meu pedacinho de salvação. Eu tenho agradecido muito sempre que olho pra ela. Ela não me julga, não me maltrata, não é racista, não é misógina, machista, não me agride (exceto algumas vezes quando me morde, mas eu sei que isso é seu instinto, não é maldade), não me trata mal quando eu erro com ela, pelo contrário, ela vê quando eu também sou amor, quando cuido, quando a faço carinho e me preocupo com ela, e ela volta quando eu não estou errando. Ela me desculpa, e continua me oferecendo carinho, lealdade e gratidão.
Acho que foi uma benção que esse animal me encontrasse. Eu lembro que no início eu não queria ficar com ela, mas foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu olho pra ela e às vezes quando me dá aquela vontade funda de não existir por um tempo, eu lembro que ela tá aqui, que eu a amo e me preocupo com ela, penso que se eu não estiver aqui, quem vai gostar dela como eu, se preocupar com ela como eu e cuidá-la? Então eu penso que preciso fazer um esforço, porque ela precisa de mim e tá aqui me dando o carinho dela, então eu tenho que continuar aqui pra retribuir.
Eu preciso aprender a lidar com algumas frustrações e com as fantasias que eu crio na minha cabeça.
Eu sei, eu sei que eu não deveria fantasiar nada. Que pessoa adulta, nessa fase da vida ainda faz essas burradas, não é mesmo? Que pessoa sonha, cria expectativas sobre coisas da vida que deseja que aconteçam? Então eu penso que não posso culpar ninguém quando me decepciono com as pessoas, porque fui eu que criei, que imaginei felicidades que não existem!
O desejo de felicidade só existe na minha cabeça, só na minha cabeça, e preciso aprender que não é porque eu desejo que seja real, que algum dia será. Acho que eu preciso entender que pode ser que nunca, nunca seja. E eu preciso aprender a viver com isso. Às vezes acho que na verdade morrerei por isso. Às vezes acho que morrerei como Florbela Espanca. Tive esse pensamento a muitos, muitos anos atrás quando li sobre a escritora e sua vida pela primeira vez. Ali, quando li como ela viveu, seus dessabores com a vida e o fim que a levou, pensei que seria igual o meu fim. O tempo passou, eu encontrei algumas felicidades momentâneas na vida e achei que não dava pra voltar a ser tão infeliz. Mas dá. Dá! Dá porque mais uma vez eu fiz a mesma merda, a mesma burrice de criar na minha cabeça felicidades que não existem, não existem pra mim e talvez não existam nunca.
Eu sinceramente já não suporto mais ler textos que dizem para as pessoas que "é preciso aprender estar sozinho/a". Eu não suporto porque eu já aprendi. Na verdade é a única coisa que eu aprendi. Em que momento eu não estive só? EM QUE MOMENTO EU NÃO ESTIVE SÓ????
Estar só é simplesmente a única coisa que eu conheço. Tenho estado só desde a infância. Minha adolescência foi de solidão. Minha vida adulta tem sido de solidão. Eu sei como é estar só. Eu sei tanto como é estar só que quando penso em não estar só eu penso que não sei como não estar só. Não estar só às vezes é o que me causa pavor, porque eu passei tanto tempo só que penso que não saberei lidar com a não solidão. Mas tem um pedacinho de mim, um pedacinho, bem pequeno, muito escondido, que às vezes deseja saber ao menos uma vez como é não estar só. Porque eu queria assim poder fazer isso uma vez na vida, só pra saber como é.
Quando eu leio esses textos de coach sentimental, emocional, que dizem que "precisamos aprender a ficar só" eu só fico pensando que eu já sei, eu já sei como é, e aí fico me perguntando: "Que hora que esse aprendizado acaba"?